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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Antes de Queiroz, ministro negou sete habeas corpus por Covid-19

Além do ex-assessor de Flávio Bolsonaro, João Otávio de Noronha concedeu habeas corpus também à sua mulher, Márcia Aguiar, mesmo ela estando foragida.
Márcia Oliveira de Aguiar e Fabrício Queiroz - Foto: Reprodução
João Otávio Noronha, presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou ao menos sete habeas corpus que alegavam risco de contaminação de presos por Covid-19 antes de dar o benefício a Fabrício Queiroz e sua mulher que está foragida, Márcia Aguiar, na quinta-feira (9).
O jornalista Eduardo Barretto, da coluna de Guilherme Amado na época, levantou a série de negativas desde o início da pandemia, decretada em 11 de março pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em 20 de março, o ministro negou um habeas corpus coletivo para presos do Ceará que estão no grupo de risco da pandemia.
Em 7 de abril, Noronha rejeitou revogar a prisão preventiva de um homem em São Paulo que teria apontado um canivete a um funcionário de uma padaria, e saído do local com um energético que custava R$ 5,25. A Defensoria Pública paulista afirmou que a polícia não encontrou armas ou objetos com o suspeito, que nega o crime, é réu primário, trabalha e tem residência fixa.
Em 23 de abril, o presidente do tribunal negou conceder medidas cautelares e, assim, livrar da cadeia um homem acusado de roubo, também em São Paulo. No dia seguinte, indeferiu libertar um empresário no mesmo estado, acusado de receptação. No dia 27, recusou relaxar a prisão preventiva de um suspeito de tráfico de drogas.
Em 15 de maio, Noronha deu resposta negativa a outro habeas corpus para outro acusado de tráfico de drogas. Uma semana depois, rejeitou habeas corpus a um homem acusado de estupro.E em 9 de julho, o presidente do STJ concedeu habeas corpus e garantiu prisão domiciliar a Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro alvo do Ministério Público do Rio, e sua mulher, Márcia Aguiar. Márcia teve a prisão decretada há 20 dias, mas seguia foragida.
Fonte: Época

Lei Aldir Blanc: MP que libera R$ 3 bilhões para a Cultura é publicada

Medida foi publicada nesta sexta-feira (10) no Diário Oficial da União
Os artistas, trabalhadores, coletivos e empreendedores da Cultura podem comemorar. A Medida Provisória (MP) Nº 990/2020, publicada nesta sexta-feira (10) no Diário Oficial da União, liberou R$ 3 bilhões a estados e municípios para o pagamento do auxílio emergencial ao setor cultural.
Esse crédito extraordinário estava previsto na Lei Nº 14.017/2020, a Lei Aldir Blanc – que foi relatada na Câmara Federal pela deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e sancionada pelo presidente Bolsonaro no final de junho. Os espaços e as atividades do setor – como cinemas, museus, shows musicais e teatrais – foram um dos primeiras a pararem, como medida de prevenção à disseminação do novo coronavírus no país.
A Lei Aldir Blanc prevê o pagamento de três parcelas de um auxílio emergencial de R$ 600 mensais para os trabalhadores da área cultural, além de subsídio para manutenção de espaços artísticos e culturais, microempresas e pequenas empresas culturais, cooperativas e organizações comunitárias. Estados, municípios e o Distrito Federal serão os responsáveis pela distribuição dos recursos.De acordo com a MP, os recursos serão liberados a partir da contratação de operação de crédito interna (contratos ou emissão de títulos da dívida pública). A MP tem força de lei a partir de sua publicação, mas ainda depende de aprovação do Congresso Nacional.
Com informações da Agência Brasil

sábado, 4 de julho de 2020

Deputado sobre veto de Bolsonaro: “tudo o que faz é ajudar o vírus”

Para Jerry, o corte de partes importantes da regra é mais um claro sinal do desprezo do mandatário com os números de mortes pelo vírus no país

Lei que determina o uso de máscara foi aprovado pelo Congresso
Vice-líder do PCdoB, o deputado federal Márcio Jerry usou as redes sociais nesta sexta-feira (3) para protestar contra o veto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao trecho da lei que determina o uso obrigatório de máscaras em público, sancionada hoje.
“O veto de Jair Bolsonaro a partes importantes da lei que aprovamos no Congresso sobre uso de máscaras só reforça a irresponsabilidade dele desde o início da pandemia. Tudo que o presidente faz é para ajudar o vírus e não proteger a população”, declarou o parlamentar.
Para Jerry, o corte de partes importantes da regra é mais um claro sinal do desprezo do mandatário com os números de mortes pela doença no país e precisa ser contestada.
“É necessário gritar bem alto em sinal de alerta que a pandemia do coronavírus ainda se encontra em processo de ampliação no Brasil. Avanços que existem, apesar da negligência do governo federal, não permitem relaxamento dos cuidados necessários que todos precisamos manter”, completou o deputado.

Máscara obrigatória

No último dia 23 de junho, Justiça do Distrito Federal concedeu uma liminar na qual obrigava também o presidente a usar máscara de proteção contra a covid-19 em todas as suas aparições públicas, sob pena do pagamento de multa diária de R$ 2 mil em caso de descumprimento da ordem. A Advocacia-Geral da União (AGU) afirmou que recorreu da decisão.

62 mil mortos

Segundo dados do consórcio de veículos da imprensa divulgados na manhã desta sexta, o Brasil já acumula 62 mil óbitos e mais de 1,5 milhão de infectados pela doença.

Ceará recebe mais 70 toneladas de EPIs para profissionais atuando no combate à pandemia

O material vai ser distribuído na rede pública de saúde do Estado e também do Município


Foto: Divulgação

Mais um avião trazendo carregamento de insumos hospitalares destinados ao combate da pandemia de Covid-19 pousou no Ceará, com 70 toneladas de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). A aeronave chegou na madrugada deste sábado (4) no Terminal de Cargas do Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza.
O material vai ser distribuído na rede pública de saúde do Estado e também do Município. Entre os equipamentos estão máscaras N95, aventais e toucas descartáveis.
É o quarto avião que sai da China e desembarca em Fortaleza com carregamento destinado aos profissionais e unidades hospitalares trabalhando com casos do novo coronavírus.  























Legenda: Equipamentos hospitalares e EPIs estão entre as compras realizadas
Foto: FOTO: FABIANE DE PAULA
Em abril, 90 toneladas de insumos foram trazidas, incluindo testes para detectar a doença. Em maio, os primeiros 200 respiradores comprados pelo Estado chegaram à Capital, e no último dia 17 de junho mais 300 respiradores adquiridos chegaram em um carregamento de 24 toneladas. 

Casos de Covid-19 no Ceará

O número de casos confirmados da Covid-19 no Ceará, infecção causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), chegou a 118.041, segundo os dados da plataforma IntegraSUS, atualizados às 11h14 desta sexta-feira (3) pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Também foram contabilizados 6.351 óbitos pela doença. 
Fortaleza se mantém como a cidade com maior circulação do novo coronavírus, acumulando 36.100 casos e 3.346 óbitos provocados pela doença. Em seguida vêm Sobral e Maracanaú, que contabilizam 7.145 e 3.837 casos, respectivamente. 

Grupo armado invade campo de futebol e mata irmãos a tiros em Itaitinga

Moradores da região ouviram mais de 60 disparos durante a ação


Legenda: Irmãos são mortos a tiros após grupo armado invadir campo de futebol na Grande Fortaleza.
Foto: Rafaela Duarte
Cerca de dez homens armados invadiram um campo de futebol e mataram dois irmão a tiros na rua 8, no bairro Barrocão, em Itaitinga, na noite desta sexta-feira (3).
Conforme a Polícia Militar, as vítimas, que não tiveram as identidades reveladas, estavam se preparando para participar de uma partida de futebol quando os atiradores chegaram em dois veículos e atacaram os jogadores.
Durante o tiroteio, houve correria no local e mais de 60 disparos foram ouvidos pelos moradores da região. Uma das vítimas caiu dentro do campo, próximo a trave. Já a outra chegou a sair do local, porém morreu na rua. O grupo fugiu após o crime.
Segundo a polícia, os atiradores usaram uma arma longa na ação. O crime será investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Fonte: Diário do Nordeste

A luta comum dos entregadores de aplicativos digitais

Além da expropriação de direitos, a ordem neoliberal expropriou os trabalhadores de uma identidade baseada no trabalho e alimentou um discurso individualista e meritocrático na sociedade.

No dia 1° de julho, em diversas cidades do Brasil, os entregadores de aplicativos reivindicaram melhores condições de trabalho, como aumento do valor das tarifas, vale-refeição, seguro acidente, seguro automóvel, fim dos bloqueios por parte dos aplicativos e equipamentos de proteção contra a Covid-19. Embora as demandas dos trabalhadores de aplicativos digitais pareçam específicas do setor, a primeira grande paralisação dos entregadores de aplicativos diz respeito a todos os trabalhadores e trabalhadoras. A precarização do trabalho não é uma característica apenas os trabalhadores de aplicativo e, caso não surja uma consciência ampla de classe, deve ser ampliada nos próximos anos, tendo em vista a intensificação da crise econômica que se alarga, ao menos, a partir da crise de 2008.
Ao longo das últimas décadas, o discurso neoliberal ganhou espaço e adeptos em todo mundo, inclusive nos governos social-democratas, desde 1970. As regulações sociais e as legislações trabalhistas foram vistas como o grande obstáculo do crescimento econômico, o que fez com que um número cada vez maior de trabalhadores fosse expropriado de direitos sociais, culturais e econômicos. Grande parte dos trabalhadores hoje não tem oportunidades adequadas de renda e salário, proteção contra dispensa arbitrária, capacidade e possibilidade de manter e ascender em status e renda, proteção contra acidentes e doenças, oportunidade de adquirir conhecimentos e fazer uso no seu emprego, garantia de renda estável e adequada e garantia de representação.
Além da expropriação de direitos, a ordem neoliberal expropriou os trabalhadores de uma identidade baseada no trabalho e alimentou um discurso individualista e meritocrático na sociedade. O fracasso, o desemprego e a miséria, deixaram de ser percebidos como resultados das contradições inerentes ao sistema econômico capitalista e passaram a ser aceitos como inaptidão individual, moral, incapacidade do trabalhador em se adaptar aos padrões requeridos pelo mercado. As distribuições desiguais de renda e as crises macroeconômicas de cunho global se tornaram problemas secundários para maior parte da população. O discurso político da luta de classes transformou-se em um discurso moral, que naturalizou o sujeito como capital humano.
Ocorre que, diferentes do que os defensores do neoliberalismo pregaram, as últimas décadas não trouxeram melhores condições de vida e emprego. A precarização do trabalho e da vida se tornaram a regra e, não, a exceção. Uma massa cada vez maior de pessoas passou a conviver com múltiplos empregos e micro-contratos de serviços individualizados, sem estabilidade e possibilidades de crescimento. As horas de trabalho aumentaram, assim como a dependência de capacitação constante. A insegurança, o medo e a ansiedade se tornaram os afetos centrais dos trabalhadores.
Como afirma Nancy Fraser, houve um agravamento da opressão no neoliberalismo financeirizado. O capitalismo sempre explorou a mão de obra, por meio do trabalho assalariado, e expropriou os indivíduos das suas propriedades – terra, corpo, animais, ferramentas –, seja pelo aparato militar ou pela dívida. Contudo, nos últimos anos, a expropriação não foi apenas material, mas também institucional e subjetiva. As instituições, os direitos e as formações anteriormente necessárias para empregabilidade se tornaram móveis, líquidas, ao ponto de o trabalhador perder qualquer certeza ou garantia, seja ela institucional, relacional ou informacional. As certezas existenciais e materiais dos trabalhadores se dissolveram no ar. E qualquer perspectiva de ascensão e segurança, se tornou um sonho inalcançável para maior parte da população.
A paralisação do dia 1° de julho é mais do que uma luta por demandas específicas dos trabalhadores de aplicativos digitais. A paralisação traz à tona o que o discurso neoliberal insiste em ocultar: o lugar social do trabalho. Em uma sociedade mergulhada por crises econômicas, incertezas sociais, múltiplos antagonismos e crescentes movimentos autoritários, como no Brasil, resgatar o lugar social do trabalho se torna essencial. E esse retorno só é possível se pensada a partir do resgate, no debate público, das críticas sobre as explorações e expropriações comuns aos diversos indivíduos e grupos, como a crescente desigualdade material que assola o interior de diversos países no mundo e as próprias relações desiguais entre países. A maior parcela da população global é expropriada do acesso a trabalho, renda, educação e saúde, enquanto menos de 1% usufrui dos privilégios da reprodução capitalista. Ao mesmo tempo, atualmente, a desapropriação de direitos e a entrega de companhias nacionais e reservas naturais pode ser identificada como novas formas de colonização e, consequentemente, exploração e expropriação de países e continentes inteiros.
O resgate, por indivíduos e grupos do lugar social do trabalho pode resultar em uma forte coesão contra as explorações e expropriações do capital, a partir de uma política cultural da diferença combinada com uma política social de igualdade. Ambas as pautas se entrelaçam e apoiam uma a outra. No capitalismo, economia política e cultural estão necessariamente interligadas, da mesma maneira que as injustiças de distribuição e reconhecimento. A combinação dessas pautas permite remédios transformativos de toda sociedade e demandas efetivas. Essa combinação pode resultar no definhamento do atomismo neoliberal e, consequentemente, em construções mais democráticas de sociedade, que atendam as demandas do nosso tempo político e econômico. A luta dos trabalhadores de aplicativos é uma luta comum.
Referências:
ALONSO, Luis Enrique. Prácticas económicas y economía de las prácticas. Crítica del postmodernismo liberal. Madrid: Catarata, 2009.
BOLTANSKI, Luc. CHIAPELLO, Ève. El nuevo espíritu del capitalismo. Móstoles, Ediciones Akal, S.A, 2002.
FRASER Nancy. Legitimation crisis? On the political contradictions of financialized capitalism. Critical Historical Studies, 2015.
FRASER, Nancy. O feminismo, o capitalismo e a astúcia da história. Mediações, Londrina, v.14, n.2, p.11-33, julho/dezembro, 2009.
LAZZARATO, Maurizio. O governo das desigualdades: crítica da insegurança neoliberal. São Carlos: EdUFSCar, 2011. 
STANDING, Guy. O precariado: a nova classe perigosa. Belo Horizonte: Autentica
AUTOR

Brasil é o país onde mais morre doente de covid-19 por dia no mundo

Número de mortes por covid-19 está estabilizado, há sete semanas, mas estacionou num patamar alto de mais de mil óbitos diários, superando os EUA

Manaus AM 15.05.20 Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida. causado pela Pandemia do Covid-19 Foto: Alex Pazuello/Semcom
O Ministério da Saúde divulgou hoje que o Brasil tem 1.290 novas mortes contabilizadas em decorrência do coronavírus, elevando o total para 63.174 óbitos desde o início da pandemia — a letalidade é de 4.1%.
O dado atualizado é o maior crescimento de mortes no país desde o dia 23 de junho, quando o governo federal registrou mais 1.374. Hoje cedo, um balanço divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) apontou que o Brasil é o país que mais registrou mortes diárias pela doença no mundo.
O Brasil tem 46% mais mortos do que o segundo no ranking: México (679), e 54% mais que o terceiro colocado: EUA (583). Enquanto o México segue em escala ascendente, os EUA mantém semanas de queda consistente nos óbitos, embora os casos começam a crescer novamente.
De ontem para hoje, a pasta também somou 42.223 novos casos da doença — nos últimos três dias, o país teve mais de 137 mil novos pacientes infectados. Com os dados atualizados, o total é de 1.539.081 de diagnósticos.
Registro de casos por semana epidemiológica revela aumento significativo nas últimas três
Registro de óbitos por semana epidemiológica revela estabilização num patamar muito alto de mais de mil mortes por dia, há sete semanas
Mesmo contabilizando testes rápidos, ineficazes para o controle da epidemia de covid-19, o país aplicou menos testes para detectá-la do que países menos afetados pela doença causada pela covid. Até a semana passada, segundo o Ministério da Saúde, o país realizou 13,7 testes para cada mil habitantes. O Chile, que tem dez vezes menos mortes, testou quatro vezes mais. A Eslováquia, que notificou 28 mortes até agora, testou quase três vezes mais que o Brasil.
Os dados globais são da Universidade Oxford, que não atualiza mais informações sobre o Brasil devido à falta de informações informadas pelo governo federal. O país ainda tem ao menos 868.372 casos recuperados e 607 mil em acompanhamento, segundo dados do governo.

Prefeitura promete fiscalizar, mas Barra ‘sextou’ com bares cheios e clientes sem máscaras um dia após noitada no Leblon

Ressaca da insensatez: aglomeração desta vez foi na Olegário Maciel, point do bairro da Zona Oeste
Lucas Altino, Leticia Lopes e Marcelo Antônio Ferreira
04/07/2020 - 04:30
Balada vigiada: Fiscais da prefeitura vistoriam um restaurante na Barra para verificar cumprimento dos protocolos Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Balada vigiada: Fiscais da prefeitura vistoriam um restaurante na Barra para verificar cumprimento dos protocolos Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo

RIO — Após a noitada de quinta-feira nos bares e nas calçadas do Leblon, onde foram ignoradas as regras de proteção contra o coronavírus, que já matou mais de sete mil pessoas no Rio, donos de restaurante decidiram virar a mesa para enfrentar a repercussão negativa das cenas de aglomeração que se espalharam pelas redes sociais. Empresários do setor fizeram uma reunião e anunciaram que, a partir de agora, vão denunciar o desrespeito aos protocolos estabelecidos pelas autoridades. Já a prefeitura garante que vai reforçar a fiscalização. Depois do Leblon, nesta sexta-feira foi a vez de a Rua Olegário Maciel, point na Barra, ter bares lotados com frequentadores, mais uma vez, sem máscaras.
— A tônica é mudar nossa imagem. Precisamos passar de denunciado para denunciante — afirmou Alexandre Serrado, presidente do Polo Gastronômico do Jardim Oceânico, dono do Bar da Lapa e conselheiro do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio (SindRio). — Acho que também precisamos usar o Disk Aglomeração da prefeitura. Se está tumultuando na porta, o comerciante tem que chamar a polícia. E mostrar que o protocolo é respeitado no interior do estabelecimento.
Das quase cem mil denúncias de aglomeração que a prefeitura recebeu desde março, 22.400 envolviam bares e restaurantes. A noite de quinta-feira, primeiro dia da reabertura de bares e restaurantes na cidade após mais de três meses de fechamento por causa da pandemia, teve muito movimento, principalmente, nas ruas Dias Ferreira, no Leblon, e na Hilário de Gouveia, em Copacabana. O cenário foi diferente de outras áreas boêmias, como a Lapa, que não teve tantos frequentadores. A Guarda Municipal esteve no Leblon e pediu que algumas casas, como Stuzzi e Belmonte, fechassem mais cedo devido à concentração de pessoas. No entanto, de pouco adiantou. A grande maioria que sequer usava máscaras estava nas calçadas, consumindo bebidas vendidas por camelôs.
— Nós podemos parar de servir quem está em pé, mas não temos controle se a pessoa compra cerveja em outros locais, pois a calçada é espaço público — diz Serrado.
Bar na Barra da Tijuca: frio e chuva nesta sexa-feira não espantaram clientes, que ignoraram o uso das máscaras Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Bar na Barra da Tijuca: frio e chuva nesta sexa-feira não espantaram clientes, que ignoraram o uso das máscaras Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Covid-19 banalizada
Para o escritor e historiador Luiz Antonio Simas, especialista em botequins, as aglomerações de quinta-feira foram um “triunfo da insanidade”. Ele vê uma mistura de sentimentos nesse comportamento, que passa pela banalização da morte e pela negligência do poder público:
— A cidade, tristemente, aprendeu a banalizar tragédias. A Covid-19 foi normatizada pela sociedade, num movimento que não é inédito. No Império, epidemias eram banalizadas. Novamente, vimos a falta de percepção coletiva.
A psicanalista Lindinaura Canosa, da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio, enxerga um comportamento equivocado para desafiar as autoridades:
— É uma ideia imatura. Quando você vai para o bar de maneira inconsequente, você vai contra você, contra seu pai, contra sua mãe.
Nas redes sociais, a farra no Leblon foi criticada por anônimos e famosos. A atriz Fernanda Paes Leme classificou as cenas no Leblon de irresponsáveis. Tatá Werneck também foi dura: “Enquanto trabalhadores sofrem por não poderem ficar em casa porque precisam sustentar suas famílias, pessoas egoístas ironizam o sofrimento dessas famílias indo a praias, bares etc”.
Em um dos vídeos que circularam na internet, é possível ver que os clientes do bar Boa Praça, no Leblon, estavam sem máscara. Um dos sócios, Flávio Sarahyba se defendeu e disse que adotou todos os protocolos sanitários, como abrir com 50% da capacidade e fazer a medição de temperatura na entrada.
— É muito delicado. Eu posso pedir para os clientes usarem máscara dentro do estabelecimento, mas também entra a questão da cidadania e da consciência do carioca.
Dono da rede Belmonte, com nove unidades no Rio, Antonio Rodrigues fez críticas à falta de apoio do governo. Ele contou ter dois restaurantes em Portugal, onde recebeu ajuda para pagar a funcionários e teve direito a uma linha de crédito.
— Assim você pode dormir tranquilo, consegue pagar contas. Sabe que vai reabrir só quanto estiver todo mundo bem — disse Rodrigues.
Em Copacabana, o ponto de aglomeração foi no bar Pavão Azul.
— Está muito difícil. Passamos, praticamente, quatro meses com o bar fechado. Da nossa parte, não houve descumprimento. Estamos fornecendo álcool em gel, e todo mundo trabalha com máscara. As pessoas estavam com saudades. Agora acho que vão ficar mais comedidas — disse o administrador do estabelecimento, Sérgio Santos
Em nota, o SindRio afirmou que é “absolutamente contra a aglomeração” e que o que aconteceu nesta sexta-feira “não corresponde ao trabalho sério e comprometido de todos os empresários que abriram suas portas para receber seus clientes, dentro da legalidade, e com todos os protocolos ainda mais rígidos de higiene e de distanciamento”.
Até mesmo quem é louco por uma mesa de bar acha que não é hora de aglomeração.
— A ansiedade é grande, mas, por ora, é melhor ficar em casa — afirma especialista em bares Marcos Bonder, conhecido como Bond Buteco.
Colaboraram Felipe Grinberg e Rodrigo Berthone

Adiamento das eleições municipais impõe desafios às campanhas

Dirigentes partidários, cientistas e consultores políticos apontam diferentes impactos das mudanças nas eleições. O tempo maior para organização das candidaturas divide espaço com o risco de desgastes pela pandemia










Legenda: Eleições municipais foram adiadas para novembro após promulgação de PEC
Foto: Agência Brasil
Nesta semana, o Congresso Nacional bateu o martelo sobre o adiamento das eleições municipais deste ano. Os dois turnos foram adiados para novembro, um intervalo de pouco mais de 40 dias em relação às datas anteriores. A mudança influencia todos os prazos eleitorais previstos e, como consequência, o planejamento dos partidos para a disputa eleitoral pelos Executivos e Legislativos municipais. Diferentes atores envolvidos nas eleições concordam na imprevisibilidade de como deve ocorrer a disputa, mas arriscam projeções sobre os impactos do adiamento. 
Para uns, a mudança nas datas do pleito pode ser um desafio para os atuais gestores municipais, que ficarão mais expostos à opinião pública na crise do novo coronavírus. Já outros alertam para as incertezas de uma campanha em meio à pandemia e avaliam que opositores ganham mais tempo de organização para as candidaturas. 
Depois que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para adiar as eleições foi aprovada no Senado, prefeitos e vereadores começaram a pressionar deputados federais na Câmara, onde a proposta também precisou ser votada, para manter as datas do pleito. O consenso ocorreu apesar da resistência de parlamentares do Centrão, receosos de que os atuais gestores sofressem mais um desgaste. 
Crise financeira
Entre os receios, o de novos surtos da infecção nas cidades e estados, já que a pandemia ainda não está controlada no País. A falta de sustentabilidade financeira, agravada pelo isolamento social nos municípios, também deve ser uma preocupação. 
“Os municípios estão arrecadando menos e, nos próximos meses, o orçamento municipal vai ficar menor. Ainda que não seja diretamente culpa do o prefeito, se começar a atrasar a folha de pagamento, por exemplo, isto tende a impactar as chances de reeleição”, argumenta o professor de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Márcio Carlomagno. “Quanto mais adiante forem as eleições, maior vai ser o impacto que as pessoas vão sentir em suas vidas”, acrescenta.
No Estado, dirigentes partidários estão atentos à possibilidade de aumento de desgaste dos atuais gestores por conta da crise provocada pela pandemia de Covid-19. Presidente do PDT no Ceará, o deputado federal André Figueiredo aponta que isso pode atingir mesmo aqueles que não irão disputar reeleição. 
Por isso, o parlamentar diz que há uma movimentação no Congresso Nacional em prol da liberação de mais recursos federais para aliviar a crise nos municípios. Nos bastidores da aprovação da proposta de adiamento das eleições pela Câmara, houve negociação de um repasse de R$ 5 bilhões aos municípios. 
Imprevisível
Sobre o adiamento, Figueiredo acrescenta que ainda é difícil projetar os impactos futuros. “Tudo vai depender de como a pandemia vai se comportar nas próximas semanas. Temos que acompanhar como vai ser a definição da campanha política. Vamos estender o tempo de votação na urna, estimular campanha virtual. Hoje, tudo que se disser é na base do ‘acho’”.
O consultor da área de marketing político, Bergue Lima, concorda que os efeitos do adiamento das eleições deste ano ainda são imprevisíveis. Apesar do desafio imposto pela pandemia aos atuais gestores, ele afirma que, em alguns casos, pesquisas internas apontam vantagem para os detentores de mandato. “Para a maioria dos prefeitos que se posicionaram, que foram para cima durante a pandemia, cresceu a popularidade”. 
Justamente por conta da pandemia, a professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres, considera uma mudança no perfil do candidato que tende a ser procurado pelos eleitores nesta disputa eleitoral. O foco será naqueles que, sendo de situação ou oposição, consigam dar respostas efetivas para crises. “O que se espera de um prefeito é que tenha capacidade prática para gerir crises. Então, nomes com este perfil devem aparecer com mais força nesta eleição”, projeta. 
Na avaliação de Bergue Lima, quem está no Governo pode aproveitar o tempo a mais para apresentar mais ações de gestão. “Para quem vai tentar a reeleição, é continuar trabalhando, tentando combater o vírus e sedimentar o que ele tem”, analisa. Já entre os que fazem oposição, a perspectiva é de apropriar-se do adiamento das datas das eleições em nome do planejamento.
Oposição
Presidente estadual do Pros, o deputado federal Capitão Wagner, aponta benefícios quanto ao adiamento das eleições. “A gente tem mais tempo para planejar e preparar a campanha, para que a gente alcance os melhores resultados. Para mim, tem vários aspectos positivos. Antes de qualquer coisa, é bom para a saúde pública e seguir as orientações das autoridades sanitárias”, argumenta. 
Na avaliação da cientista política Monalisa Torres, o tempo extra até a campanha deve ser valorizado por candidaturas de oposição. “Este distanciamento para a eleição foi bom para a oposição, porque vai dar mais tempo de organizar as estratégias de campanha”, observa. “Quem estava parado e não podia sair para pré-campanha, vai ganhar fôlego agora, porque vai se organizar, formular um plano de Governo e saber vender isso”, concorda Bergue Lima. 
Também na oposição, o presidente municipal do PT em Fortaleza, vereador Guilherme Sampaio, aponta que, para as eleições na Capital, “não há como dizer se favorece mais o lado A ou o lado B”. Para ele, se por um lado, diante da pandemia, a base governista terá que “correr atrás do prejuízo”, por outro, o tempo extra pode contribuir para a organização, dando “mais tempo para o prefeito organizar a candidatura e tentar construir um nome (para a sua sucessão)”. 
“Mas a verdade é que ninguém (nem situação nem oposição) consegue estar inteiro na pré-campanha com tudo que vem ocorrendo durante a pandemia”, pondera. 

Campanha
Para o presidente do PSD no Ceará, Domingos Filho, entretanto, a principal preocupação é a realização da campanha em meio a uma crise sanitária. “Os eleitores querem o candidato na sua porta, o candidato quer pedir voto para o eleitor. Então, se não houvesse a prorrogação (das eleições), o próprio cidadão, embora queira a presença do candidato, fica preocupado com a Covid”, afirma. 
A campanha eleitoral feita presencialmente é uma característica muito forte da eleição municipal, explica o cientista político Márcio Carlomagno, e a diminuição disso deve trazer uma dificuldade para os partidos. “A eleição municipal depende muito do corpo a corpo, do candidato visitando os bairros, deste contato. Serão os candidatos capazes de reorganizar as suas campanhas eleitorais?”, questiona. 
A vantagem, neste caso, estará entre os pré-candidatos que vinham ganhando visibilidade nas mídias sociais. Elas, para o cientista político, devem ser a principal alternativa para a realização de campanha neste ano. “Quem estiver organizado na esfera digital deve ficar na frente daqueles que não davam atenção a ela”, acredita. 
Comunicação
Neste contexto, pontua Monalisa Torres, a propaganda eleitoral gratuita na televisão e no rádio também deve ganhar importância. Se nos centros urbanos e nas grandes cidades o acesso a internet é facilitado, outras formas de comunicação devem ser utilizadas em municípios menores.
“A internet ainda é uma realidade distante para alguns municípios. Neles, nós devemos ter um protagonismo das rádios locais, que é uma forma mais comum de comunicação da população”, argumenta a cientista política. 
“Possivelmente, esses meios ganhem uma importância maior do que a usual justamente pelo fato de não ter o ‘corpo a corpo’. Mas, nós temos mais de 5 mil municípios no Brasil, e cada um tem sua especificidade. Temos que identificar cada disputa dentro do seu contexto”, pondera Márcio Carlomagno. 
Domingos Filho alerta também para o curto período que os prefeitos terão para entregar a gestão e fazer a transição administrativa com os sucessores. O dirigente, porém, diz que só vê desgaste com o adiamento das eleições para aqueles gestores que não tiverem responsabilidade com o uso do dinheiro público. 
Legislativo
O Legislativo também deve ser impactado pelas mudanças causadas não só pelo adiamento das eleições, como pelas consequências da pandemia. Quem deseja ocupar uma das cadeiras das Câmaras Municipais já vinha lidando com as novidades trazidas pelo fim das coligações para eleições proporcionais, alterando a maneira de pensar as chapas de candidatos a vereador. 
Neste contexto, para cientistas políticos, quem tenta a reeleição pode ter vantagem. “O vereador é visto como elo entre a Prefeitura e a sociedade. Então, quem busca a reeleição, acaba sendo mais competitivo porque já tem serviço prestado, já é visto neste papel de mediador", explica Monalisa Torres. “(Eles) vão ser menos cobrados do que os prefeitos, porque o ônus e as responsabilidades acabam sendo vistas como do Executivo”, aponta Márcio Carlomagno.
Monalisa Torres ressalta, contudo, que o cenário não descarta a construção de novas candidaturas. “Principalmente de quem tenha comunicação eleitoral a partir das redes sociais, porque, para o Legislativo, as mídias sociais talvez tenham um peso maior do que no Executivo”, afirma.
Fonte: Diário do Nordeste